MARCOS CIDRAC

Por Thiago Rangel | rangel@betimcultural.com.br

Marcos Pereira da Silva, conhecido como Cidrac, é um dos principais tatuadores do município de Betim. Em seu estúdio, frequentam pessoas de diferentes tribos, religiões e estilos, mas que possuem em comum a mesma paixão: a tatuagem. Desde a adolescência, Marcos já possuía afinidade pelas tattoos, tanto que fez sua primeira aos 15 - uma caveira no braço. Há sete anos trabalhando como tatuador, já fez mais de 1.000 obras, de diversos estilos, cores e formas. Apesar da experiência, Marcos segue estudando para conhecer as recentes técnicas da arte. Saiba mais sobre tatuagens nesta entrevista com Cidrac Tattoo.

RBC - Como você vê a tatuagem em Betim?
Marcos – A tatuagem em Betim está crescendo muito, no início existia grande preconceito, hoje as pessoas estão mais liberais.

RBC - Qual foi a maior dificuldade desde que você decidiu tatuar?
Marcos – Acredito que todo início seja difícil, em qualquer área de atuação. Aprendi como se fazia tatuagem, desenvolvi a maneira correta de se colocar a tinta na pele, mas eu não sabia desenhar. Nesse momento, percebi a necessidade de fazer cursos e recorri à arte, pintura em tela, e estudei técnicas de grafite. Há sete anos estou tatuando e estudando, é algo contínuo, não dá pra parar.

RBC - Você já sofreu algum tipo de preconceito nesse trabalho?
Marcos - Sofri preconceito sim! Quando comecei, as pessoas me perguntavam se eu só trabalhava com tatuagem. Essa pergunta sempre me incomodou. Atuando profissionalmente em meu estúdio também ofereço serviços como piercing e maquiagem definitiva.

RBC - Quais as principais referências quando começou a tatuar?
Marcos – Minha primeira referência foi meu sócio, mas busquei mais. Atualmente existem várias revistas de tatuagem e materiais na internet. Porém, quando comecei, não havia um lugar onde se buscar referências. Era muito por intuição, você fazia uma borboletinha ou uma nuvenzinha com sol e aquilo era o essencial. Hoje, você vê verdadeiras obras de arte.

RBC - Muita gente escolhe as tatuagens baseadas em momentos que estão vivendo, como exemplo: pessoas que tatuam o nome ou o desenho do rosto de suas paixões. Essa é uma boa forma de escolher uma tatuagem?
Marcos – De forma alguma! A tatuagem dura mais do que determinados relacionamentos, mais do que certos modismos que existem por aí. Por outro lado, sempre existirão as fases... Entre elas: o Tribal, a ilha com sol e as três estrelinhas. Agora a moda é escrever nome, e claro, está fadado a dar errado. Um fato curioso é que todos os dias eu faço um nome de alguém e todos os dias eu cubro um nome.

RBC - Tatuagem ainda é moda? Como está a procura atualmente? Houve uma época em que havia mais procura que hoje?
Marcos – Está muito em evidência. Na década de 80, assisti à uma entrevista de um tatuador que causava repercussão, nos anos 90 houve um estouro de tatuados e tatuadores. Não existia uma indústria da tatuagem antigamente. Hoje em dia, todo o material é avaliado pela ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária - e existe uma indústria muito grande que desenvolve esse mercado.

RBC - É comum as pessoas fazerem tatuagens para esconder cicatrizes ou marcas?
Marcos – Cicatriz é mais comum, como também, existem mulheres que utilizam deste recurso para esconder a marca da cesariana, abdominoplastia, queimaduras, estrias, entre outros sinais.

RBC - Quais são as principais regras de higiene e quais as condições que um cliente deve observar em um estúdio para saber se é um bom local para fazer a tatuagem?
Marcos – Primeiro, o estabelecimento precisa ter o alvará da Vigilância Sanitária e cuidar de detalhes como: limpeza do local, uso dos EPI’S, máscaras, luvas, agulha, biqueira, jóias e se o material está sendo desembalado na frente do cliente na hora em que ele vai fazer o procedimento. O material precisa ser embalado com papel grau cirúrgico, que inclusive possui uma marca que comprova que foi esterilizado. É importante dizer que o cliente pode pedir ao tatuador para acompanhar, visualizar e checar esses procedimentos.

RBC - Tatuagem dói? Quais os cuidados pós-tatuagem?
Marcos – Dói. Mas é algo relativo. Existem pessoas que sentem muita dor, outras nem tanto. Já tive clientes que dormiram durante o processo de tatuagem. Os lugares que costumam doer mais são: pés, mãos e costelas. Os outros lugares do corpo são mais tranquilos.

Algumas pessoas acham que dói fazer tatuagem no inverno, o que não acho ser verdade. As tatuagens no inverno ficam muito mais bonitas, pois o ideal é você ficar quatro meses sem tomar sol nenhum, pois a tatuagem sofre alterações. Quando você pega sol, a pele escurece, e quando não existe interferência solar, a tattoo fica muito mais bonita. O inverno é a época ideal para se tatuar, logo, ao chegar o verão a tatuagem estará maravilhosa.

RBC - Tatuagem desbota? Em quanto tempo deve ser feita a manutenção?
Marcos – Sim, com o tempo é comum o desbotamento, alguns pigmentos perdem sua força por influência do sol. Algumas pessoas são tão fanáticas por tatuagens que até evitam sair de dia, cultuando hábitos mais noturnos, entretanto, uma tatuagem bem cuidada pode durar até 15 anos sem precisar de retoques.

RBC - Como funciona o processo de elaboração de um trabalho seu para o cliente?
Marcos – Existem clientes que já tem uma ideia do que querem fazer. O pior é quando o indivíduo chega ao estúdio e quer que você adivinhe o que ele quer, essa é a parte mais difícil, por que cada um pensa de uma forma. Algumas pessoas pedem ajuda na escolha, mas é preciso pesquisar e investir tempo, até chegar à decisão ideal.

RBC - Quais artistas você admira e quais influenciaram o seu trabalho?
Marcos – Admiro o trabalho de Mordente, Cigano e diversos tatuadores de Minas Gerais.

RBC - O que você considera fundamental na formação de um tatuador?
Marcos – Primeiro, o estudo da arte, isso é primordial. Se um tatuador não estuda, não pinta, não conhece arte, ele está fadado ao fracasso! Hoje as pessoas estão mais exigentes. Outro ponto importante é a atenção com o cliente, o relacionamento é fundamental.

RBC - Quais são suas paixões além da tatuagem?
Marcos – Rock 'n' roll

RBC - Qual a trilha sonora de uma boa sessão de tatuagem?
Marcos – Muito Rock! Ouço uma rádio online o dia inteiro.

RBC - Com quem você já se tatuou e existe alguém em específico que você gostaria de tatuar?
Marcos – Já me tatuei com Milton, Tatu, Alexandre, Taioba, Atila, e tantos outros. Gostaria de tatuar todo mundo! (risos)

RBC - Para quem quiser conhecer seu trabalho:
Contatos: Marcos – Cidrac Tattoo
Endereço: Rua Rio de Janeiro, 297, Sala 205 - Betim / MG
Telefone: (31) 3532 – 2059
Email: marcoscidractattoo@hotmail.com
Site: www.myspace.com/cidracattoo
Facebook: http://facebook.com/marcoscidractattoo

BANDA SALTO ALTO

Por Thiago Paiva

Salto Alto. A primeira imagem que nos vêm à cabeça após ouvir a expressão é a de uma mulher bonita, de “presença” em relação às outras. Isso denota e faz jus à banda que adotou esse nome. Composta por cinco mulheres, o grupo Salto Alto reúne talento e bom gosto. Elas conversaram com a equipe da RBC no show realizado no mês de julho no bar Dona Rosa. Versatilidade, inteligência e beleza, agora na RBC entrevista!

RBC: Para descontrair e a gente começar, vocês já atrasaram o inicio de algum show por que estavam se maquiando ou algo assim?

‘’(risos)... Não! Na verdade a gente se arruma como qualquer mulher, e sabemos que temos que chegar um pouco mais cedo, porque com certeza demoramos um pouco mais que os homens para se arrumar. Mas nos shows que fazemos, principalmente aqui em Betim, nos arrumamos muito, as mulheres daqui são muito bem arrumadas e lindas, não queremos fazer feio.

RBC: Qual a maior dificuldade que vocês enfrentam em suas jornadas? Há algum preconceito?

Temos as mesmas dificuldades que um grupo musical composto por homens, e mais uma dificuldade quanto ao preconceito por ser uma banda feminina. As pessoas criam uma expectativa maior em torno do nosso trabalho, uma expectativa puxada para o lado da cobrança. Não fugimos da responsabilidade e apresentamos o nosso trabalho, que é feito com muito gosto e assim conseguimos conquistar as pessoas.

RBC: Vocês já se sentiram privilegiadas de alguma maneira na hora de conseguir um show, ou de conquistar o espaço por ser uma banda só de mulheres?

Acontece em alguns casos de as pessoas fazerem contato por ser uma banda feminina, e a partir daí descobrem que além de ter uma banda só de mulheres se apresentando, terão um show bacana.

RBC: Por mais que tenhamos tantas artistas mulheres consagradas no mundo da música, por que vocês acham que uma banda composta só por mulheres ainda soa como algo inusitado?

Por não termos um histórico de outras bandas que possuem essa formação. Somos vistas como ‘’a banda das meninas’’ e na verdade não é assim, somos a Banda Salto Alto, muito prazer! Estamos na estrada há sete anos, e isso se deve ao nosso trabalho, dedicação e ao apoio que recebemos. As pessoas precisam conhecer mais e julgar menos. 

RBC: Como a banda procura ser uma ferramenta na construção de uma sociedade mais rica em cultura?

Essa é uma preocupação constante da banda. Temos um CD com 12 faixas que são de autoria da Salto Alto, assim mostramos nosso trabalho.

RBC: Há muitos anos, uma mulher em um palco era algo absurdo, hoje, estamos aqui diante de uma excelente banda feminina. As mulheres já destruíram todas as barreiras no mundo da música ou ainda existem barreiras a serem superadas?

Existem muitas barreiras a se superar, e nós descobrimos isso todos os dias, sentimos na pele!  Essas barreiras precisam ser vencidas, mas hoje em dia não dá para calcular o tempo. As coisas mudam em muito pouco tempo. Por isso a estratégia é sempre fazer um bom trabalho, com profissionalismo.

RBC: Qual a principal característica que fez vocês serem tão reconhecidas e aceitas?

O fato de não ser uma banda convencional, nossas apresentações e, claro, nossa música. O fato de ser uma banda só de mulheres ajuda no reconhecimento, e admitimos isso, sabemos que a beleza ajuda também, mas não é fator principal, não deixar a cargo da beleza o nosso reconhecimento, queremos ser reconhecidas através do nosso trabalho, nossa música.

RBC: Como vocês se projetam no cenário da música para os próximos anos?

Esperamos que nosso trabalho possa ter mais reconhecimento. Buscamos novas parcerias para gravar nosso próximo trabalho, e assim darmos continuidade. Acreditamos no nosso trabalho, principalmente pelo reconhecimento do público, das pessoas que têm acompanhado nossa trajetória. A gente não reproduz o artista em geral, um concorrente cruel que é celebridade; fazer música é complicado, ser músico é uma coisa, conciliar a arte com a mídia é trabalhoso. A gente enxerga um mercado paralelo e acredita que se possa viver bem de um mercado assim.

RBC: Para as meninas, que sonham em ingressar no mundo da música, assim como vocês, mas ainda se sentem tão excluídas, qual o conselho da Salto Alto?

Montar um fã-clube pra mim, brinca Riva, a vocalista.

Não desistir, não se menosprezar, não se sentir ameaçada, você tem seu valor independente da sua área, faça valer a sua força. No final das contas, as coisas valem a pena e a luta não para. Faça seu sonho acontecer!

RBC: Para finalizar, qual imagem vocês têm de Betim, e qual a mensagem para os betinenses?

A gente já tocou no Café com Arte também, a imagem e mensagem para Betim é uma salva de palmas. Nós simpatizamos com a cidade, a gente gosta daqui, tem um ar diferente, culturalmente falando, percebemos o quanto a cidade é desenvolvida e possui atrações interessantes e de bom gosto, Betim está de parabéns!

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Faça contato com a banda através do site, www.saltoalto.com.br
A equipe RBC recomenda um Salto Alto na sua vida!

ADERBAL GOMES

Presidente da Fundação Artístico-Cultural de Betim (Funarbe)
Por Thiago Paiva

RBC: Qual a sua ligação com a história de Betim e como você vê a cultura em nossa cidade?

Aderbal: Olha, minhas raízes são todas firmadas nessa cidade. Eu nasci e cresci em Betim, meus avós eram daqui, meus pais e eu. Minha mãe morou no bairro Vianópolis, onde eu também moro, e eu cresci com essa cidade, acompanhei as transformações no cenário político e cultural ao longo desses anos que estou aqui. Betim é riquíssima em cultura, possui artistas fenomenais de grande conhecimento e com excelentes trabalhos, Betim é uma cidade de muitos artistas.

RBC: O que a Funarbe vem fazendo na sua gestão em prol do artista betinense?

Aderbal: Desde que assumi a presidência da Funarbe, em 2009, com a prefeita Maria do Carmo, eu e toda minha equipe estamos trabalhando muito para organizar a casa. Chegamos aqui e a Funarbe necessitava de uma melhor infra-estrutura, coisa que hoje temos. Desde móveis a material de trabalho e condições para desenvolvimento de nossos projetos. Enfim, passaram-se dois anos de muito trabalho para fazer da Funarbe uma instituição que cada artista betinense espera, uma organização bem estruturada e pronta para atender o artista de Betim.

RBC: Qual a maior conquista da Funarbe para os artistas de Betim até esse momento em sua gestão?

Aderbal: Olha, sem dúvida alguma foi a conquista dos recursos necessários para a construção do teatro em Betim. É preciso ressaltar que não é uma conquista só minha, só da Funarbe. Essa é uma conquista dos betinenses, dos artistas de Betim. O propósito é ter um espaço que vá além de um teatro, mas um espaço para o artista betinense, seja o artesão, o artista plástico ou o músico. O projeto já aprovado foi orçado em 15 milhões de reais e agora estamos em um processo de licitação para a escolha da empresa que irá executar a obra. Para isso, foi preciso a união da classe artística, a mobilidade da administração do município e incentivo da iniciativa privada. Betim merece um espaço para nossos artistas.

RBC: Quais são os projetos da Funarbe para tornar a cultura mais acessível à população?

Aderbal: É necessário um esforço não só da Funarbe. Nós acreditamos que todos os níveis da sociedade precisam dar à cultura o valor que ela merece, por isso, temos trabalhado muito com o objetivo de informar à iniciativa privada como apoiar mais a cultura. Betim tem uma capacidade de renúncia fiscal de 50 milhões de reais, porém muitos de nossos empresários não sabem disso. Além de nosso esforço diário para dar aos artistas o suporte que esperam da instituição, estamos interessados em trabalhar com informação.




RBC: Em sua opinião, como a cultura transforma a vida das pessoas?

Aderbal: Fazendo com que as pessoas envolvidas em movimentos culturais tenham suas vidas transformadas. Eu vou citar o exemplo da Colômbia, país com altos índices de violência, que depois de investir na cultura, viu esses índices reduzirem consideravelmente, investindo na inclusão cultural das pessoas. Além disso, a cultura ajuda a saúde do planeta através de todos os elementos recicláveis que são produzidos por artistas plásticos.

RBC: Betim tem potencial para se tornar uma cidade de roteiro cultural?

Aderbal: Com toda certeza! Betim já faz parte do circuito cultural Trilha dos Bandeirantes e pode oferecer ainda outras atrações turísticas culturais para a população e visitantes. Para isso, é necessário investimento em infra-estrutura. Temos importantes pontos aqui como a Várzea das Flores, a linha férrea que pode ser mais explorada, o parque ecológico Vale Verde e outros. A verdade é que Betim precisa de mais investimentos para receber pessoas. Precisamos já de um espaço para substituir o parque de exposições. Quando construído, a região o abrigava bem, hoje, está em uma área muito habitada o que prejudica os moradores no momento em que eventos são realizados. Precisamos investir em infra-estrutura.

RBC: Como se dá a parceria da Funarbe com os artistas do município?

Aderbal: Desde que assumi nos preocupamos sempre em trazer o artista para dentro da Funarbe, participando ativamente de nosso dia a dia. Para começar, a nossa equipe foi selecionada com alguns artistas, pessoas do meio musical, de artistas plásticos a praticantes de capoeira. Nossa equipe é muito boa! Decidimos também consultar os artistas na hora de tomar decisões, democratizar o processo dentro da instituição. Prova disso, foram as mudanças adotadas na lei Noemi Gontijo que apóia os projetos dos artistas de Betim, sentamos com eles e acatamos solicitações. Promovemos também o Domingo no Parque para dar mais visibilidade aos artistas e suas obras.

RBC: Você acha que a política tem dado mais valor à cultura nos últimos anos?

Aderbal: Absoluta certeza que sim. Hoje, todo governo encara a cultura como uma importante ferramenta de transformação na sociedade e muito importante também para a economia. O artesanato movimenta 32 milhões de reais por ano. Ou seja, é necessário prestar bastante atenção nas pessoas que estão envolvidas nesse processo. Nos últimos 8 anos, avançamos muito na cultura do Brasil, com os ministros Gil e Juca. Os governos têm investido mais em toda a cadeia produtiva que a cultura movimenta.

RBC: O que é preciso para presidir uma importante instituição cultural como a Funarbe?

Aderbal: Sensibilidade para reconhecer manifestações e obras culturais e ser um bom gestor. Eu trabalhei com Osvaldo Franco em seu segundo mandato, trabalhei com Carlaile em seu primeiro mandato e toda essa bagagem política adquirida ao longo desses anos me ajudou a ter condições de assumir esse cargo. Quando recebi o convite da nossa prefeita para assumir a Funarbe, me senti honrado, pois respeito e admiro muito a classe artística. Assim, concluo que é importante ter sensibilidade cultural e ser um bom gestor.

RBC: O que a população e principalmente os artistas de Betim podem esperar para o tempo que resta até a finalização desse mandato?

Aderbal: Eu não quero sair da Funarbe sem antes finalizar toda a organização da instituição. Quero deixar a casa toda organizada para quem vai chegar, seja quem for, e também, juntamente com minha equipe, criar um cadastro para todos os artistas de Betim. Sabemos que hoje Betim tem por volta de 10.000 artistas e a Funarbe está engajada para organizar e cadastrar todos eles.

FÁTIMA MIRANDDA

O ÍCONE DAS ARTES PLÁSTICAS DE BETIM

Fátima Mirandda, artista plástica, professora de pintura em tela, proprietária do espaço Tracos Atelier no Brasiléia e  moradora de Betim há 28 anos. Já realizou diversas exposições na nossa cidade e até fora do país. Homenageada em países como Espanha e Portugal, Fátima Mirandda recebeu a equipe da RBC em seu atelier e mostrou trechos de sua trajetória que, somados, fizeram dessa artista plástica, uma referência no cenário cultural da nossa cidade!

RBC: Fátima Mirandda, como nasceu seu interesse pelas artes plásticas? O meio em que se vive influencia esse despertar, ou isso já é algo que nasce com a pessoa?

FÁTIMA: Artista nasce artista, mas as oportunidades fazem dele artista ou não. Conheci as artes aos 15 anos através de uma prima, descobri o talento. É necessário tentar para despertar o dom na prática. O ambiente influencia sim, o que se vive, e transmitimos isso em nossas obras, mas isso se aplica apenas ao artista que é artista em sua essência, que trabalha com dom, não a artistas feitos em laboratórios.

RBC: Antes de se tornar uma artista plástica consagrada, no início de sua carreira quais foram as principais dificuldades enfrentadas e como você as superou?

FÁTIMA: Acredito que não só para mim, mas para grande maioria dos artistas no início de carreira, a maior dificuldade é sempre a questão financeira. Mas eu sempre tracei o caminho do trabalho com honestidade, afinal é ele o único caminho que nos leva à conquista. É preciso correr atrás, tentar ao máximo expor as obras e não apenas sonhar.

RBC: Você acredita que os artistas sofrem algum tipo de preconceito pela sociedade? Por quê?

FÁTIMA: Existem várias formas de preconceito. Uma das formas de preconceito que os artistas sofrem é a comparação a outros profissionais como um advogado, um médico, ele é menos valorizado. As pessoas se enganam pensando que ser artista é hobby, que nós artistas não trabalhamos. Pelo contrário, trabalhamos sim, e muito, a diferença é que somos profissionais privilegiados, pois com toda certeza amamos o que fazemos e dessa forma nosso trabalho é menos penoso.

RBC: Nesse caminho traçado no mundo da cultura, o que você viveu e aprendeu que mais lhe emocionou e o que mais lhe entristeceu?

FÁTIMA: Um dos momentos mais lindos foi quando conheci de perto nos museus da Europa  obras de Da Vinci, Van Gogh  e tantos mestres que fizeram da vida uma obra de arte. Viver a intensidade daquele momento único é uma emoção inigualável. Outro momento foi quando  finalizei  o trabalho da Vila Vicentina, realizado através  da lei de incentivo à cultura do nosso município. Nesse trabalho, pude ver como a  arte  pode transformar as pessoas, trazer  alegria. Foram três meses intensos.
Tristeza é ver a indiferença de algumas pessoas diante de uma obra de arte, perceber a insensibilidade e  a desvalorização no valor de uma obra que faz parte do nosso eu.

RBC: Como artista e como cidadã, qual a sua principal luta na busca de uma sociedade mais rica em cultura, o que você faz?

FÁTIMA:
Desde que cheguei a Betim, o meu trabalho sempre foi em prol da arte, eu ensino e ensinei  arte para muitas pessoas de Betim. Lamento não poder contribuir de forma maior, pois falta muito apoio para concluir muitos projetos. Ensinei arte e realizei projetos que beneficiaram outros artistas da cidade e da grande Belo Horizonte,  sempre me preocupando com o lado social e cultural que acredito ser responsável pela formação do indivíduo, hoje desenvolvo um trabalho voltado para crianças a partir de 5 anos, formando novos artistas, além de trabalhar com a terceira idade.

RBC: Em muitos de seus quadros, você abordou temas e cenários do cotidiano betinense, como são feitas as escolhas desses temas e cenários?

FÁTIMA:  Realizei uma exposição sobre Betim e quando decidi  realizar esse projeto fiz um extenso trabalho de pesquisa para conhecer profundamente a história e as raízes da cidade. Durante esse trabalho de pesquisa fui  me apaixonando mais e mais por Betim que hoje me considero fazer parte dela.

RBC: Betim é uma boa cidade para um artista  viver?

FÁTIMA:
Para viver sim, mas não viver de arte.

RBC: Sendo artista plástica, como você vê a receptividade da sociedade sobre elementos culturais?
Betim tem crescido assustadoramente e tenho visto a cultura cada dia melhor, claro que tem muito ainda a ser feito, mas não só aqui como em todo o Brasil cultura ainda é um problema social, apreciar a arte é algo bem mais que simplesmente gostar, é preciso entender, conhecer e saber valorizar um trabalho artístico, o gosto pela arte vem da cultura, podemos perceber isso comparando com a Europa, o artista lá é bem visto, é tratado como alguém especial, infelizmente nem todos nos vêem assim por aqui. Ainda somos marginalizados por grande parte da sociedade, mas uma coisa é certa... SER ARTISTA NÃO É ESCOLHA É DOM DE DEUS.

RBC: Você já expôs suas obras em outros países, e até recebeu prêmios internacionais. Como o artista brasileiro é visto mundialmente?

FÁTIMA: Com bons olhos! Sempre que visitei a Europa fui extremamente bem recebida e admirada, principalmente na Espanha  e Portugal. Prova disso é que eu tenho um quadro exposto em Lisboa que faz parte do acervo da “UCCLA”. As pessoas gostam do artista brasileiro, das nossas cores, do nosso jeito alegre de ser.
Reconhecem nosso talento e nos prestigiam.

RBC: Depois de tantos anos em Betim, qual a sua mensagem para a população betinense?

FÁTIMA: Eu aprendi a amar Betim e as pessoas dessa cidade, aprendi com o trabalho que realizei, com os amigos que aqui fiz que, aliás, são tantos que aprendi a amar, respeitar e admirar. Se um dia eu  tiver que ir embora, irei  com o coração apertado e  com certeza não será por opção. Tenho um sonho “Viver de arte na nossa Betim” e fazer dela uma Cidade Cultural respeitada e procurada por todos!

PURA FACE DE UM POETA

Carlos Lúcio Gontijo

Por Thiago Paiva, com fotos de Lucas Fernando Diniz

A prova de que o talento esta ao alcance de todos. Jornalista, escritor e poeta. Natural de Santo Antônio do Monte, agraciado com o título de cidadão honorário de Contagem - onde viveu por quase 26 anos - e com uma forte relação com a região, inclusive Betim. Carlos Lúcio Gontijo conversou com a equipe da Betim Cultural em uma de nossas melhores entrevistas até hoje. Digo isso porque o nível cultural deste cidadão está muito distante da maioria que compõe a nossa sociedade. Essa minha afirmação vai te parecer mais próxima a cada resposta que ele deu para nossas questões. Confira:
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REVISTA BETIM CULTURAL: Carlos, sua primeira publicação ocorreu no ato de 1977 e felizmente você continua escrevendo e publicando. Como autor, você sentiu alguma transformação em relação as suas ideologias ao longo desses anos?
CARLOS LÚCIO GONTIJO: Sim. Minhas ideias mudaram, meus pensamentos sobre a vida também. Eu não releio meus livros depois que escrevo, mas, sei que meus pensamentos mudam e meus livros também, isso está associado também ao fato de eu querer sempre escrever coisas novas, logo, meus pensamentos mudam também.

Em seu livro Cio de Vento, você retrata cenários concretos com uma visão muito peculiar. Seria esse o grande diferencial dos poetas? Enxergar o mundo de uma maneira mais profunda que os outros seres humanos?
Com certeza. Esse livro foi meu alicerce, um livro normalista. Conheci portas como Bueno Rivera que me influenciaram muito nessa visão profunda sobre cenários da vida. A poesia tem um segredo, tem de existir metáforas, poesia é isso! E é preciso ter visão profunda para enxergar os cenários e linguagens ao nosso redor.

Ainda falando sobre Cio do vento, um dos poemas, ‘’Reflexão’’ o leitor é levado a uma reflexão sobre um cotidiano já esquecido, das conversas na janela. Nesse mundo cada vez mais moderno em que tanto se prega o tempo, ainda existe espaço para essa vida descrita na poesia?
Existe, basta sairmos do objetivo de sermos modernos para buscarmos ser eternos. É preciso preocupar mais com nossas amizades, nossos laços sentimentais. O tempo está aí, é preciso ter sabedoria para usá-lo. A maneira mais fácil de se tornar um ser eterno é fazendo bons amigos, pois quando você se vai, eles sempre se lembraram de você, e é preciso ter tempo para amigos.
Em 96 você publicou o livro ‘’Erotismo e sensualidade’’, existe alguma diferença no que confere a poesia de um livro como esse, de outros presentes em sua obra?
A diferença existe pois é mais difícil escrever sobre sensualidade. É difícil porque é preciso saber falar sobre erotismo sem cair na pornografia, é necessário uma intimidade muito profunda e poesia no que se escreve para não tornar algo vulgar.

Em sua obra ‘’O Menino dos olhos maduros’’ você frisa o quanto é importante saber enxergar. Porque nem tudo que tem olho vê! Pode ser esse um grande mal que afeta o relacionamento das pessoas?
Acredito que sim. É preciso aprender a analisar, nós temos que buscar mais sensibilidade. Um exemplo é a relação das pessoas com a televisão. Elas sentam, assistem mas não analisam o que estão vendo, apenas assistem. A mídia induz as pessoas a abandonarem a sensibilidade. Olha esse sucesso da saga ‘’Crepúsculo’’ uma historia baseada em um chupar o sangue do outro, a sociedade cada dia mais tem sido assim, por isso filme fez tanto sucesso. As pessoas precisam aprender a analisar mais umas as outras e não apenas olhar.
No livro ‘’Cabine 35’’, você aborda sobre os encontros que temos ao longo de nossa trajetória, e defende que a sinergia de nossas mentes nos levam a determinados caminhos. Do seu ponto de vista como deve ser o curso de vida dos seres humanos? Falando como poeta.
Nossa vida deve seguir o curso do maior ensinamento de Jesus Cristo, ‘’Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.’’ Mas as pessoas não praticam esse ensinamento. É preciso saber que ninguém chega a nenhum lugar sozinho, você sempre vai precisar da ajuda do outro. Nós precisamos dos outros para tirar a medida de nós mesmos.

Em sua obra ‘’O contador de formigas’’ você prega a importância e o real significados de palavras como amizade, união e igualdade. O quanto nós já estamos distantes desses valores? E como resgatá-los em uma sociedade em que cada vez mais anda na contrapartida de tais valores?
Eu acredito que estamos caminhando cada vez mais para longe desses valores. A sociedade tem sido cada vez mais individualista. As pessoas acham que auto estima é voltar para si mesmo e não é! Não tem como melhorar se você olhar sempre pra você mesmo. O caracol só avança quando sai de sua casquinha, ou seja, de dentro de si mesmo. E os homens são assim. É necessário sairmos de nós e prezarmos mais por esses valores.

Em seu último livro, ‘’Jardim dos corpos’’ você relata: ‘’ O comportamento moral camaleônico, flexível e revogável, transformou-se em filosofia de vida que inundou a comunidade mundial’’. Como a falta de cultura das pessoas contribuem para que o mundo seja solo fértil para tal afirmação?
Na verdade é uma cadeia de acontecimentos históricos que nos levarão a onde estamos. A falta de cultura é um desrespeito a vida. É preciso valorizar a cultura como forma de vida. Tudo isso se dá devido a falta de investimento das autoridades e a mídia que não se preocupa em oferecer cultura para as pessoas. As grandes redes de informação destroem a vida das famílias dando maus exemplos, destruindo valores morais das pessoas. 


Você é um poeta realizado! Mas como poeta realizado, ao seu modo de ver, quais as maiores dificuldades enfrentadas por quem se atreve a ser poeta?
Primeiramente não existe editoras no Brasil para quem quer ser poeta. Elas alugam seus selos. Os poetas são de uma sociedade que todos querem ter sucesso, enquanto o certo deveria querer ser realizado. Meu trabalho não aparece todo dia, mas meu trabalho está em dia! A literatura não é produto de auto consumo no Brasil, por isso há tanta dificuldade. Para você ter uma idéia de como são as coisas. Jornalista brasileiro não lê! Jornalista no Brasil não lê nem o que ele mesmo escreve. Tô dizendo isso para que você entenda como é difícil ser poeta. Se os jornalistas não lêem nem o que eles escrevem, imagina convencer as pessoas a lerem poesia?

Como a cultura deve ser aplicada para ser fator de transformação da sociedade? O que todos nós precisamos fazer?
São necessárias muitas ações, mas de inicio, poderíamos começar com um projeto de distribuição de livros regionalizada. O poder publico tem que publicar mais livros de autores que não têm oportunidade. Isso ajudaria a aproximar os autores dos leitores. Tudo melhoraria. A maneira das pessoas escreverem, lerem e se identificarem com sua cultura regional. O segredo está em formar leitores. Em países como a Alemanha por exemplo a leitura é um habito muito comum, isso explica muita coisa. É necessário também distribuir mais recursos da cultura que estão sempre nas mãos das mesmas pessoas, pessoas essas, já consagradas que teriam condições de se manterem sozinhas. É necessário investir de maneira justa, como a própria cultura deve ser aplicada, de maneira igualitária.

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Carlos ainda nos disse que em seu 14º livro - o romance QUANDO A VEZ É DO MAR - será prefaciado pelo poeta Antônio Fonseca, que é membro da Academia Betinense de Letras (ABEL). O lançamento está previsto para 27 de abril de 2012, data em que Carlos completa 60 anos. Você pode conhecer toda a obra desse brilhante escritor e excelente ser humano em seu site oficial: www.carlosluciogontijo.jor.br.

LITERATURA DO VELHO MUNDO

Por Thiago Paiva

Escritor português, chegando a incrível marca de 50 obras literárias, lançadas em países como Portugal, Brasil, Espanha e Chile.Talvez a imagem que esteja criando na sua cabeça seja de um senhor dos cabelos brancos e orgulhosas rugas no rosto, mas, queridos leitores, este grande escritor com uma obra admirável tem apenas 33 anos de idade. Pedro Silva, o escritor português mais brasileiro que existe conversou com a Revista Betim Cultural e ao longo de nossa entrevista, discutimos um pouco sobre o que torna o jovem em um excelente escritor digno de ser apresentado como “recordista cultural’’.

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REVISTA BETIM CULTURAL: Pedro, para que possamos começar. 33 anos, 50 livros publicados, qual segredo? Você sofre de insônia?

PEDRO SILVA: Sinceramente, não acredito que exista algum segredo. Tudo está relacionado com muita força de vontade e a crença de ser possível poder cumprir o meu sonho de criança, isto é, tornar-me escritor na verdadeira acepção da palavra. Mas, de qualquer modo, creio que estou apenas a dar os primeiros passos nesta minha caminhada literária.

Seu gosto pela leitura e escrita começaram quando você era uma criança. Você acredita que ser autor trata-se de uma vocação, um chamado?

No meu caso, desde muito jovem que tinha este sonho de ser, um dia, um escritor com obra publicada. Sem dúvida que a vocação é fundamental. Mas a paixão não pode ser descurada. Quiçá, tudo isto se resuma naquilo que refere, ou seja, “um chamado”.

No início de sua carreira literária, você enfrentou muitas recusas até que tivesse obras publicadas. Por que esse meio é tão exigente? A concorrência e as editoras são leais com quem se arrisca a ingressar nessa carreira?

Tanto no início da minha carreira literária, como ainda atualmente, as recusas são sempre muitas. E, na verdade, temos de reconhecer que as editoras são empresas. Como tal, existem para ter lucro. Portanto, atendendo à enorme oferta de obras, é natural que tenham de fazer uma selecção para defender os seus interesses comerciais. Eu, apesar de ser autor, concordo com as opções editoriais, mesmo quando recusam um trabalho de minha autoria.

Você escreve desde os 10 anos de idade, no inicio não tinha um acesso a internet quanto hoje. Voce acredita que a internet separa as pessoas dos livros? Como você vê a relação livros versus internet?

Não sou entusiasta de uma leitura preferencialmente pelo ecrã de um computador. Posso ser considerado um conservador, no que aos livros diz respeito, mas para mim uma obra deve ser impressa em papel. Mas, atendendo à evolução natural, não é difícil prever que o futuro possuirá fortíssima tendência virtual. E, nessa perspectiva, poder-se-á aproveitar as potencialidades das novas tecnologias para uma integração na própria divulgação da obra. Um livro de História que possa ser complementado com imagens de monumentos ou mesmo vídeos históricos será, sem dúvida, uma mais-valia. Mas, felizmente, acredito piamente que o livro em formato papel nunca irá desaparecer.

Sua carreira literária é marcada por obras de extrema complexidade como, ‘’Os grandes mistérios da Humanidade 2006’’, ‘’As maiores civilizações da historia’’ de 2008 e o profundo “Ku Klux Klan: Pesadelo Branco’’ de 2003. Como o seu cotidiano, e o mundo como um todo influenciam suas obras?

Um ensaísta é, sempre, influenciado pelo mundo exterior. Aliás, como qualquer outro cidadão. Porém, a redação dos livros deve ser totalmente isenta. E é isso que tenho procurado em todos os meus trabalhos. Escrever sobre um tema não significa obviamente qualquer ligação com ele, a não ser o de informar o público. Assim sendo, um investigador que publique uma obra sobre uma qualquer enfermidade, não significa que por ela se sinta atraído ou que pretenda sofrer desse mal. Na verdade, está apenas a cumprir o seu papel de estudioso e o dever de informar. Essa é, também, a função do ensaísta.

A partir de seu primeiro livro ‘’ Ordem do Templo: Em Nome da Fé Cristã’’ lançado no ano 2000, ao longo de sua carreira você publicou outras obras voltadas para religiosidade. Escrever sobre elementos místicos, abstratos e fictícios requer uma determinada sintonia espiritual com alguma força ou é como escrever sobre crônicas do cotidiano?

Por muito que isto possa decepcionar alguns leitores, a grande realidade é que, para um ensaísta, a questão temática é praticamente indiferente. A minha fé não influenciou qualquer dos meus títulos. E posso afirmar que sou uma pessoa profundamente crente. Para mim, enquanto profissional, um livro é um objeto de trabalho, para dar ao leitor um texto fluido, interessante, informativo e cativante. Obviamente, que me reservo ao direito de não abordar temáticas que considere ofensivas ou similares, sobretudo porque, para mim, escrever deve ser sinônimo de prazer e não para alimentar ódios ou semear desentendimento.

Quando você dá início a uma obra, você já tem toda historia em mente ou ela acontece sem uma ordem pré estabelecida, na base do “a própria história conduz”?

Depende da obra em questão. No campo dos textos ficcionais, sou mais conduzido pela história. O autor deixa-se enlear no texto. No âmbito das crônicas ou dos roteiros de viagens, existe sempre um componente pessoal, essencialmente no campo da seleção das matérias a abordar. Porém, em termos de ensaio histórico, como já frisei, trata-se de trabalho de investigação estrito.

Você tem inúmeras obras obras lançadas no Brasil, como "História e Mistérios dos Templários" pela Ediouro, 2001, "Grandes Enigmas do Passado (Desvendando o Inexplicável) pela Pulso Editorial, de 2008. Existe uma diferença na aceitação das obras pelos leitores de Brasil e Portugal?

Até ao presente momento, não notei qualquer diferença substancial em termos de aceitação pelo público brasileiro e português. Sinto-me até tentado a acreditar que muitos leitores brasileiros acreditam que eu sou um autor brasileiro (até porque o nome “Pedro Silva”, conforme fiquei a saber com o passar do tempo, é bastante comum no Brasil). Para mim é uma enorme honra sentir que, independentemente desse fato, os leitores brasileiros me acolheram de uma forma tão fraternal, fazendo jus à expressão de sermos países-irmãos.

Em sua obra "Os mais belos lugares para se conhecer (antes que eles acabem)" da Universo dos Livros, Publicado aqui no Brasil em 2008, seu foco era divulgar lugares interessantes a cunho turístico ou alertar sobre a importância da preservação do meio em que vivemos?

O propósito inicial dessa obra era a divulgação histórica e turística dos locais ali retratados. No entanto, existe em mim uma ligação muito próxima com os monumentos sobre os quais escrevo – sobretudo quando tenho a possibilidade de os visitar com o tempo suficiente para uma percepção ampla do espaço físico em conjugação com a história ali patente. Muito me entristece quando sinto que determinado local não obtém o destaque que merece. Contra isso labuto, imenso, na maioria dos meus estudos ensaísticos.

Uma obra tão grande em apenas 33 anos de vida. Quais os planos de Pedro Silva para os próximos anos? Qual sua mensagem para leitores brasileiros?

Não querendo repetir-me, o fato é que os meus planos têm sido sempre os mesmos – não apenas continuar a escrever (e a publicar) mas, simultaneamente, procurar melhorar, a cada momento, a minha escrita, de modo a proporcionar ao leitor melhor qualidade em termos de texto final. Espero ter a oportunidade de efetuar uma série de projetos que tenho em mente, assim como visualizar a publicação de alguns títulos já contratados e previstos para lançamento durante o presente ano. A minha mensagem para os leitores brasileiros inicia-se por um forte agradecimento pelo carinho que têm ofertado aos meus livros, desde o primeiro momento, animando-me a prosseguir esta minha atividade. E que espero ainda presenteá-los com mais obras de meu cunho pessoal, até porque, apesar de nem muitos saberem, a grande maioria dos meus títulos publicados foram-no no Brasil.

Por último, não gostaria de terminar a entrevista sem agradecer à Revista Betim Cultural a oportunidade que me proporcionou em poder explanar um pouco sobre a minha atividade literária, assim como dar os meus mais sinceros parabéns pelo excelente contributo que vão dando à cultura brasileira.

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Conheça o trabalho de Pedro Silva no site eupedrosilva.blogs.sapo.pt

NOEMI GONTIJO













Por Flávia Freitas (comunicacao.se@terra.com.br)

O Salão do Encontro completou 40 anos em outubro deste ano. Para comemorar a data especial do projeto social situado em Betim-MG, em parceria com a Assessoria de Imprensa da ONG, temos a satisfação de publicar uma entrevista exclusiva com a professora, fundadora e presidente da Organização, Dona Noemi Gontijo.

Flávia Freitas – Junto com o seu grande amigo Frei Stanislau Bartold a senhora fundou o Salão do Encontro em 1970. Qual o sentimento de ver a obra social completando 40 anos?

Dona Noemi Gontijo – O Salão do Encontro é a minha realização, é o projeto para ajudar as pessoas, não com o paliativo, mas sim oferecendo o caminho para que elas mesmas descubram o potencial que têm. Quem faz o Salão do Encontro são as pessoas que começaram aqui crianças, que com o apoio multiplicaram o conhecimento para levar adiante as belezas do artesanato e a qualidade dos programas sociais. Desde o início, a instituição presta assistência para as pessoas menos favorecidas de Betim, oferecendo educação de qualidade para as crianças e adolescentes, geração de trabalho e renda para adultos, idosos e pessoas com deficiência.

Flávia Freitas - A senhora dedica a vida em benefício dos mais necessitados. Qual a origem da sua essência humanista?

Dona Noemi Gontijo – Sempre gosto de contar a história da minha avó. Ela sempre falava comigo: “Gosta sempre do pobre que ninguém gosta dele”. Eu carrego esse sentimento para a minha vida. Todos que me procuram, tendo a oportunidade, eu ajudo. No Salão do Encontro não tem currículo, o papel não significa nada, para mim o importante é o caráter, a pessoa é o seu próprio currículo. Eu olho é o que a pessoa tem de potencial, o que podemos despertar nela e ver a melhora e desenvolvimento de cada um.

Flávia Freitas – Durante os 40 anos da fundação, a senhora contou com a ajuda de vários amigos e parceiros. A colaboração deles foi essencial para o desenvolvimento da obra social?

Dona Noemi Gontijo – A gente não faz nada sozinho. No início eu precisava de um terreno e tive a alegria de receber da Dona Risoleta Neves, na época esposa do Governador Tancredo Neves, oito hectares para começar as atividades. Ela acreditou na gente e confiou na obra social. Até hoje eu considero Dona Risoleta Neves e toda a família como meus grandes amigos. Além deles, outros amigos e parceiros ajudam o Salão do Encontro. Aproveito a oportunidade para agradecer a cada um deles, sou muitíssimo grata a todos.

A VISÃO DE UM ÍCONE



No dia 24 de Setembro de 2010, a cidade de Betim foi agraciada com uma excelente opção de lazer para os apreciadores da boa música: a apresentação do cantor e compositor Kiko Zambianchi. A revista Betim cultural acompanhou o show do cantor no quintal da casa da cultura no projeto Sexta Show promovido pela Funarbe. 

Além disso, a equipe da RBC conversou com Kiko e diante de um dos maiores compositores de nosso país bateu um papo em torno da seguinte questão: “por que existe tanta gente sem talento fazendo sucesso?” A RBC quis saber qual é a opinião de Kiko a respeito desse tema, afinal, o cara não é um compositor de 2 ou 3 sucessos, ele é compositor de sucessos de grandes nomes da música brasileira. Muito se engana quem pensa que Kiko Zambianchi possui sua essência totalmente voltada para o Capital Inicial, o cara além de compor vários sucessos da banda, manteve parcerias ao lado de Lulu Santos, Marina Lima, Erasmo Carlos e outros grandes nomes.

Na estrada desde 1984, Kiko é cantor, compositor e guitarrista e fala com muita propriedade quando o assunto é música, e ninguém melhor que ele para discutir com a RBC sobre esse assunto.

RBC: Por que existe tanta gente sem talento fazendo sucesso?
Kiko: Olha, eu sou de uma época em que as pessoas estavam acostumadas a acompanhar excelentes festivais musicais e, nesses festivais serem descobertas como grandes artistas. Mas, até ter a oportunidade de se apresentar em um festival, a galera tinha que ralar muito, correr atrás mesmo, suar a camisa e, acima de tudo, ter talento para conseguir uma oportunidade. Hoje, você escreve aí qualquer coisa e põe uma mulher rebolando que domingo você já vai estar na televisão. Não existe mais a identificação do que é bom ou ruim, o que existe hoje é a chamada "onda", e o povo vai nela, o que tá fazendo barulho é que chama atenção, e na grande maioria das vezes esse barulho não passa nem perto de algo com talento artístico.

Quais os canais que levam essas ondas até as pessoas?
A mídia! A mídia põe no ar o que ela quer e hoje o que a mídia quer colocar no ar, é coisa ruim. Eles buscam audiência. A mídia não tem preocupação em oferecer as pessoas conteúdo de qualidade. Ela quer a audiência das pessoas sem se importar no conteúdo que oferece. Se é a baixaria que atrai o povo, se é a apelação que faz as pessoas ficarem coladas na frente da televisão, vamos coloca isso então.


E isso já vem de muito tempo, não é?
Isso teve início na década de 90 quando começaram mesmo a deixar de lado o que era rico em cultura para dar espaço a qualquer coisa que prendesse o telespectador na frente da TV, e aí, como consequência fazia sucesso no radio que começou a seguir a mesma linha de pensamento da TV. Nós passamos uma década (90) oferecendo todo tipo de “porcaria” aos nossos jovens e com o passar dos anos o nível foi caindo, caindo, e hoje estamos aí no último ano da última década desse novo milênio com tudo isso que a gente vê hoje.

E como a mídia acabou se transformando dessa maneira, deixando de priorizar a qualidade nos conteúdos oferecidos?
Particularmente, eu destaco a falta dos diretores artísticos atualmente. Com o passar dos anos foram retirando esses caras da mídia, que funcionavam como uma espécie de filtro, com a função de não deixar que qualquer um se apresentasse. Eles analisavam qual o nível de talento da pessoa que ia se apresentar e se não tivesse arte barravam mesmo, isso na TV ou no radio.

E por que hoje a internet também contribui muito para lançar novos nomes no cenário musical?
A internet ainda mais que a TV lança candidatos a artistas o tempo todo. Porque a TV tem a programação pré-estabelecida, já a internet é o dia inteiro, são 24 horas de entretenimento oferecido e a coisa é sem limite mesmo. Você faz o que quer, põe na rede e espera a resposta do público, público esse que na maioria das vezes acaba dando mais atenção pelo bizzaro que por muita gente de talento que tenta usar a internet para se lançar e acaba ficando sem audiência, porque as pessoas estão ali ä procura do que é grotesco, do que é bizarro e isso me espanta, eu acho um absurdo!

O que poderia ser uma solução para pelo menos diminuir essa onda de tanta coisa ruim lançada o tempo todo?
Eu acredito que um órgão para regulamentar e parar com tanta coisa ruim. Claro, um órgão para avaliar, não com o poder de liberar ou não o trabalho de um artista, porque esse filme o Brasil já viu antes e todos nós sabemos o quanto foi prejudicial. Mas eu defendo sim, um órgão para analisar esse tipo de coisa, afinal se a gente deixar a coisa rolando solta como tá, daqui a uns anos só vamos ter mulheres rebolando por um barulho qualquer e a juventude batendo palma, eu defendo um órgão que tenha interesse em defender a cultura.

Para finalizar, qual é a importância de apresentações como essa em Betim?
Relevante. É a segunda vez que venho a Betim e estou gostando muito, assim como a primeira vez que eu estive na cidade. Eu gosto de Minas Gerais, acho esse estado maravilhoso e as pessoas daqui também. É muito bom tocar próximo do público como aqui na Casa da Cultura e agora que estou apresentando com minha banda, esse tipo de apresentação é tudo que a gente quer.

Thiago Paiva, Kiko Zambianchi, Lucas Fernando Diniz e Tiago Henrique Rezende Fonseca

Esse foi o bate papo realizado entre Kiko Zambianchi e a equipe da RBC no quintal da Casa da Cultura no Sexta Show. Quem quiser conhecer mais sobre a biografia desse grande músico e seus projetos pode acessar: www.kikozambianchi.com.br

RBC entrevista RENATO TEIXEIRA - Agosto/2010

 A ESSÊNCIA DA MÚSICA CAIPIRA

Uma noite para amantes do sertanejo de raiz. Assim foi a noite de sexta-feira, 28/05, na Praça Milton Campos. A funarbe trouxe para Betim o cantor e compositor Renato Teixeira. Mantendo seu estilo simples de legítimo representante da música caipira, Renato fez um show inesquecível que contou com a abertura da excelente canta Marisa Minas. E a RBC conseguiu uma entrevista exclusiva com Renato que você confere agora em nossa coluna. 



RBC: Apesar de ser um cantor do gênero caipira, você é de Santos, litoral paulista. Como nasceu esse gosto, uma vez que ele não fazia parte do seu cotidiano diário?
RENATO TEIXEIRA: Nasci em Santos sim, minha família e eu somos de lá, mas sempre viajei para Ubatuba, interior paulista, para passar férias na casa dos meus avós e, em Ubatuba, esse contato com a música caipira era mais presente, até mesmo por influência do gosto musical do meu avô, e assim fui crescendo e ouvindo música caipira e muito cedo tomei gosto por ela.

Seu primeiro festival foi o festival da Record, de 67, hoje, depois de várias apresentações, a emoção de subir ao palco continua a mesma ou depois de tanta experiência isso não influencia na sua emoção?
Eu nunca fui daquele estilo de ficar nervoso, ou ansioso antes de subir ao palco, e isso porque eu nunca subo ao palco para me exibir, eu subo ao palco para cantar a minha música e apresentar meu trabalho e, analisando por esse lado, eu não tenho porquê ficar nervoso, serei apenas eu, Renato Teixeira, cantando minhas composições. Naturalidade, isso resume.

Você conheceu vários cantores antes de alcançarem o sucesso, como o Milton Nascimento, por exemplo, você acha que se pode fazer um antes e um depois em relação ao sucesso?
Eu entendo que isso varia muito de cada individuo, afinal tem muito a ver com a cabeça de cada pessoa, alguns encaram isso como realmente é, ou seja, algo normal, outros deixam isso subir à cabeça. Existe sim um antes e depois, mas, pra mim, isso se deve ao fato de ser reconhecido aonde você vai, os costumes mudam em virtude da fama, e o assédio é inevitável, mas pra quem sabe controlar, não passa disso.


Você é de um período riquíssimo da história da música brasileira, o surgimento do tropicalismo. Depois de acompanhar o nascimento de movimentos musicais tão importantes como esse, em sua opinião, hoje a identidade musical do Brasil se encontra acomodada?
Olha, é difícil comparar. Naquela época, os meios de comunicação eram muito limitados por isso existia a maior necessidade de promover manifestações como essas. Hoje, os meios de comunicação ajudam demais novos artistas e é importante ressaltar que sempre vão existir artistas acima da média, quem é bom de verdade faz sucesso independente da época, o que conta é conseguir interpretar canções que vão seduzir as pessoas.

Você é também um grande compositor de jingles publicitários, quando se compõe um jingle, conta mais a vocação como compositor ou atender a expectativa do cliente?
Não é preciso tanta vocação para se compor um jingle, isso porque o tema já está pré definido pelo cliente, então você vai trabalhar em cima daquele tema. É diferente da música que nasce em sua mente, o jingle é basicamente um tema que foi lhe dado e em cima dele constrói-se uma pequena canção para atender à expectativa de um cliente.


Juntamente com seu parceiro Sérgio Mineiro, vocês criaram o Grupo Águia que viria a gravar com Elis Regina a música Romaria. Esse foi um divisor de águas na sua carreira? 
Sem dúvida. Nossa caminhada (Renato e Sérgio Mineiro) em prol da música caipira vinha de longa data, e a partir da gravação com Elis da música Romaria, as pessoas tiveram uma nova visão da nossa música, as pessoas puderam fazer uma releitura da nossa música. Além de mim, um grupo de muitas pessoas difundiu a música caipira no Brasil. Isso não foi da noite para o dia. Para a música caipira ser vista como é hoje, não só eu, mas várias pessoas lutaram por isso.

Qual sua relação com estado de Minas Gerais?
Eu posso dizer que certamente é uma relação muito forte. Primeiro em virtude da grande amizade com meu parceiro de estrada Sérgio Mineiro e segundo que minha formação cultural foi no Vale do Paraíba, tudo isso influenciou muito meus gostos e tendências na carreira. É impossível me imaginar onde estou hoje sem a influência mineira em mim. 


Depois deste excelente bate papo com a equipe da RBC, Renato se apresentou para uma bela platéia que o prestigiou e curtiu uma noite perfeita pra quem gosta de um céu estrelado, “friozinho” ao som de uma viola chorando e músicas inesquecíveis.

Para saber mais sobre Renato Teixeira, acesse: www.renatoteixeira.com.br